sexta-feira, 16 de maio de 2014

Review: Ricardo Piglia arquiteta genialmente uma grande metáfora do homem comum em seu “Respiração artificial”


Eu poderia começar este review – ou talvez fundamentar quase todo ele – com breves observações ou alertas para os cuidados que se deve ter antes de se lançar à leitura de “Respiração Artificial”, mas eu poderia correr o risco de preterir o caráter de clássico argentino que o livro adquiriu sem nem perceber a infâmia que estaria cometendo. Ou eu poderia ainda apenas narrar as minhas peripécias enquanto leitora do livro que é pauta deste texto. Mas eu não os farei; ressalvas quanto à genialidade do autor não são poucas e se fazem mais úteis aqui. 

“Dá uma história? Se dá, começa há três anos. Em abril de 1976, quando é publicado meu primeiro livro, ele me manda uma carta”. É assim que começa “Respiração Artificial”, a obra, talvez, mais incomum que já me deparei nesses poucos anos enquanto leitora – e se você não está acostumado com a literatura argentina, vai pensar o mesmo. Piglia arquiteta o que chamaram de “nova ficção”, quando Borges quebrou a forma até então única de se fazer ficção, ao narrar a interrogação sobre o passado de um homem, reconstruir a agressiva biografia de um possível traidor e descrever um misterioso encontro entre Franz Kafka e Adolf Hitler num romance ficcional epistolar que se põe fora do lugar comum. 


É um livro cheio de digressões, de grandes parênteses. Não possui um narrador único e cada personagem é independente dentro da história, e é este um dos maiores triunfos do autor, a bela construção de polifonia. É preciso estar atento aos detalhes; os personagens tomam a palavra sem aviso prévio, interrompem quem antes a detinha; as passagens de ambientes nem sempre são explícitas, e as chances de o leitor se confundir são um milhão em um milhão. Não é um livro fácil, mas talvez tenha a intenção de o ser, já que parece ser mais um amontoado de pensamentos soltos, de alguém que não tinha uma base sólida e por isso se apegou a qualquer caminho. 
“Respiração Artificial”, à primeira vista, pode parecer um romance que pelo menos te ofereça uma história linear para contar, mas não o faz. O que há é um emaranhado de histórias e estórias, completado com discussões sobre filosofia, vida, juventude, política, literatura, a ditadura e suas consequências. Dois homens discutem os rumos que a literatura argentina tomou no século XX, comparam Roberto Arlt a Jorge Luis Borges – e o quão profano isso pode ser! –, refletem sobre qual a forma mais apropriada de se referir a um ex-senador. E tudo soa como poesia.

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Dá uma história? Se dá, começa há três anos. Em abril de1976, quando é publicado meu primeiro livro, ele me manda uma carta. Com a carta vem uma foto, eu no colo dele: nu ,estou sorrindo, tenho três meses e pareço um sapinho. Ele, em compensação, está muito bem na fotografia: paletó cruzado, chapéu de aba fina, o sorriso franco — um homem de trinta anos que olha o mundo de frente. Ao fundo, apagada e quase fora de foco, aparece minha mãe, tão jovem que no início quase não a reconheci. A foto é de 1941; atrás ele escrevera a data e depois, como se quisesse me orientar, copiou as duas linhas do poema inglês que agora serve de epígrafe a este relato. Não houve nenhuma outra tragédia na história de minha família; nenhum outro herói digno de ser lembrado. Várias versões circulavam secretamente, confusas, conjecturais. Casado com uma mulher de posses, uma mulher com o nome incrível de Esperancita e a respeito de quem se dizia que tinha um coração frágil e que sempre dormia de luz acesa e que nas horas de melancolia rezava em voz alta para que Deus pudesse ouvi-la, o irmão de minha mãe desaparecera seis meses depois do casamento, levando todo o dinheiro da senhora sua esposa, para se juntar com uma bailarina de cabaré conhecida pelo nome de Coca. Com perfeita calma, sem perder a cortesia gélida, Esperancita denunciou o roubo e moveu influências até conseguir que a polícia o encontrasse, alguns meses depois, vivendo luxuosamente, sob nome falso, num hotel de Río Hondo.

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Respiração artificial, de Ricardo Piglia


206 páginas
Editora Iluminuras
Tradução de Heloisa Jahn
Entre R$30 e R$45
Ótimo ★★★★☆

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